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24/May/2017
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Festas Judaicas (Chaguim)

Iom HaShoá

KristallNacht - A Noite dos Cristais

Ao longo do verão de 1938, Hitler ocupou a diplomacia Européia com seu pedido pela cessão do Sudetenland para a Alemanha. Esta região da Tchecoslováquia nunca tinha sido parte da Alemanha, mas, antes de 1914, fazia parte do Império Áustro-Húngaro. Tendo a própria Áustria se tornado parte da Alemanha em Março de 1938, Hitler agora argumentava que o Sudetenland também fosse anexado ao Reich. Suas demandas eram suportadas pela reiterada ameaça de sua força militar.

No último dia de setembro de 1938, em Munich, líderes ingleses, franceses e italianos atenderam às demandas de Hitler. O Sudetenland se tornaria parte da Alemanha no dia 10 de outubro de 1938, e a Tchecoslováquia perderia suas montanhas, suas defesas naturais. Mais de 20.000 judeus viviam no Sudetenland. Eles fugiram, a maior parte para as províncias tchecoslovacas da Bohemia e Moravia, as quais Hitler havia permitido que mantivessem sua independência.

No dia 27 de outubro, menos três semanas da anexação do Sudetenland, Hitler se moveu novamente. Desta vez exclusivamente contra os judeus, expulsando da Alemanha 18.000 judeus, que, apesar de terem vivido na Alemanha desde 1918, haviam nascido nas antigas províncias polonesas do Império Russo. A expulsão, para o leste, para a fronteira polonesa, foi um ato rápido e brutal, mas estava em sintonia com o que o mundo entendia ser o método nazista. Dois dias antes das expulsões, um diplomata britânico, Sir George Ogilvie-Forbes, escreveu de Berlim que o tratamento aos judeus e oponentes políticos em campos de concentração tornava os alemães 'inadequados para a decente sociedade internacional'. Um colega senior no Ministério das Relações Exteriores em Londres concordou. Os alemães, ele anotou, 'estão dispostos a eliminar os judeus a qualquer custo (para os judeus), e não há nada que podemos fazer para pará-los'.

Um dos 18.000 judeus expulsos da Alemanha, Zindel Grynszpan, havia nascido na cidade de Radomsko, na Polônia russa, em 1886. Desde 1911 vivia em Hanover. Seu filho mais velho, Hirsch Grynszpan, tinha ido à Paris, como estudante, em 1936. O resto da família, Zindel, sua milher, sua filha e seu segundo filho, permaneceram em Hanover. Como Zindel Grynszpan depois lembrara:

"No dia 27 de Outubro de 1938 - era quinta-feira a noite, às oito horas - um policial veio e nos disse para ir à Região II. Ele disse, 'Vocês vão voltar logo, não precisam levar nada. Levem somente seus passaportes'.

Quando cheguei à Região, vi um grande número de pessoas; lá, eles estavam gritando 'Assine, assine, assine'. Eu tive que assinar, assim como todos os demais. Um de nós não assinou. Seu nome, se não me engano, era Gershon Silber, e ele teve que ficar em pé no canto por 24 horas.

Eles nos levaram para a sala de concertos, em Leine, e lá havia pessoas de todas as regiões, cerca de 600 pessoas. Lá ficamos até a sexta-feira a noite, umas 24 horas; então nos levaram em caminhões de polícia, como prisioneiros, cada caminhão com cerca de 20 pessoas, e nos levaram a estação de trem. As ruas estavam escuras, com as pessoas gritando 'Judeus, fora para a Palestina'.

Depois disso, entramos no trem, e fomos levados para Neubeschen, na fronteira entre a Alemanha e a Polônia. Era manhã de Shabat, sábado. Quando chegmos a Neubenschen as 6:00, vieram trens de outros lugares também. Juntos éramos cerca de doze mil pessoas.

Quando atingimos a fronteira, fomos revistados para ver se alguém tinha algum dinheiro, e quem tivesse mais de dez marcos, a diferença lhe era tomada. Era a lei alemã. Os alemães diziam 'Vocês não trouxeram mais que isso para a Alemanha, e não podem levar mais que isso para fora'.

Estamos sob custódia e proteção da SS, e andamos dois quilômetros a pé para a fronteira com a Polônia. Nos mandaram ir - os homens da SS estavam nos chicoteando, e aqueles que demoravam apanhavam, e havia sangue fluindo nas ruas. Eles rasgavam suas pequenas bagagens. Eramos tratados de uma maneira bárbara - era a primeira vez que eu tinha visto a barbaridade selvagem dos gêrmanicos.

Eles gritavam para nós: 'Corra, corra!', eu mesmo recebi um golpe e cai no chão. Meu filho me ajudou e disse 'Corra pai, corra, ou senão você vai morrer!'. Quando chegamos à fronteira aberta - que era chamada de fronteira verde, a fronteira polonesa - primeiro as mulheres passaram.

Então, um general polonês e alguns oficiais chegaram, e examinaram alguns papéis, e viram que éramos cidadãos poloneses, que tínhamos passaportes especiais. Decidiram nos deixar entrar na Polônia. Levaram-nos a uma cidade de uns 6 mil habitantes, e nós éramos doze mil. A chuva estava cada vez mais forte, as pessoas estavam desmaiando - alguns tiveram ataques cardíacos; por todos os lados haviam homens e mulheres de idade. Nosso sofrimento era grande - não havia comida - e desde quinta-feira não quisemos comer nenhum pão alemão.
"

'Encontrei milhares amontoados em chiqueiros', uma mulher inglesa enviada para ajudar os que haviam sido expulsos se recordou depois. 'Os velhos, os doentes e as crianças amontados juntos nas condições mais desumanas'. As condições estavam tão ruins, ele completa, 'que alguns tentaram escapar voltando para a Alemanha, e foram assassinados'.

Outro dos que tinha ido para a fronteira polonesa, para a cidade de Zbaszyn, foi o historiador polonês, de 39 anos, Emanuel Rigelblum, que, não apenas dirigia o trabalho de ajuda em nome do American Jewish Joint Distribution - Joint - mas também colhia testemunhos de muitos dos deportados, e usava a oportunidade para reunir informações sobre os eventos recentes na Alemanha nazista.

Enquanto estava em Zbaszyn, Zindel Grynszpan depois se recordou, os judeus eram colocados em estábulos ainda sujos pelos cavalos. Finalmente um caminhão com pão chegara de Poznan, mas no início não havia pão suficiente para todos.

Zindel Grynszpan decidiu mandar um postal para seu filho Hirsch, em Paris, descrevendo as dores de sua família. O jovem rapaz, enraivecido pelo que lia, foi para Embaixada Alemã em Paris, e, em 6 de Novembro de 1938, atirou no primeiro oficial alemão que o recebeu, Ernst von Rath.

Enquanto von Rath ainda estava ferido, Hitler e os nazistas denunciaram o feito como parte de uma conspiração judaica contra a Alemanha. Em 8 de Novembro, Wilfrid Israel ligou para a Embaixada Britânica de Berlim para repudiar o ato de Grynszpan, e para avisar das iminentes represálias. No dia seguinte, 9 de Novembro, von Rath veio a morrer. Do momento em que sua morte foi anunciada a Hitler, em Munich, uma onda de violência sem precedentes estourou sobre os trezentos mil judeus restantes na Alemanha.

Um jovem garoto, Paul Oestereicher, depois lembrou como ele estava andando com sua mãe numa das principais ruas de compras de Berlim, alegre depois de seis meses vivendo escondido, quando, em alguns segundos, o sonho foi interrompido. 'O que parecia centenas de homens, carregando grandes cassetetes, pularam dos caminhões e começaram a atacar as lojas a nossa volta'.

Van Leer assistia enquanto as Stormtroops tocavam as campanhias e quebravam as janelas de vidro quando não havia resposta, e entravam nas casas judaicas. 'De repente', ele se recordou, 'as varandas do terceiro andar foram arremessadas, e os Stormtroops apareciam, gritando para seus colegas na rua. Um gritou algo sobre bençãos vindo do céu, e, enquanto esperava, começou a jogar os bens da casa, como lustres e um piano, que ficou estilhaçado em escombros na rua...'

Fogueiras foram acesas em cada bairro onde os judeus viviam. Nelas eram jogados livros de oração, rolos da Torá, e incontáveis volumes de filosofia, história e poesia. Em milhares de ruas, os judeus eram caçados, ultrajados e espancados.

Em 24 horas de violência, noventa e um judeus foram mortos. Mais de 30.000 - um em cada dez dos que ali viviam - foi preso e enviado para campos de concentração. Antes da maioria ter sido liberada, dois a três meses depois, cerca de mil foram assassinados, 244 deles em Buchenwald. Outros 8.000 judeus foram despejados de Berlim: crianças de orfanatos, pacientes em hospitais, idosos de asilos. Houve muitos suicídios, pelo menos dez em Nurenberg; mas era proibido publicar anúncios fúnebres nos jornais.

Não é pelas mortes, entretando, nem pelas prisões, que a noite de 9 de Novemro era para ser lembrada. Durante a noite, assim como invadiram e quebraram dezenas de milhares de casas e lojas judaicas, os Stormtroops incendiaram 191 sinagogas; ou, caso achassem que o fogo poderia ameaçar os prédios em volta, eles destruiam a sinagoga tanto quanto era possível com martelos e machados.

A destruição das sinagogas levou os nazistas e chamar aquela noite de Kristallnacht, ou 'a Noite dos Vidros Quebrados': palavras escolhidas propositadamente para minimizar e menosprezar. De Leipzig, o Cônsul dos Estados Unidos, David H. Buffum, relatou que as três principais sinagogas foram incendiadas simultaneamente, 'estavam irreparavelmente destruídas pelas chamas'. No cemitério judaico de Leipzig, os nazistas praticaram 'táticas que se aproximavam do macabro', arrancando pedras tumulares e violando túmulos. Na cidade propriamente dita, Buffum relatou 'Tendo demolido as moradias e destruído a maior parte de seus bens nas ruas, os insaciáveis e sádicos perpetradores colocavam muitos de seus moradores numa corrente humana que fluia até o Jardim Zoológico, comandando os espectadores terrificados a cuspir neles, ameaçando-os com lama e apuros'.

Entre as testemunhas destes eventos estava o Dr Arthur Flehinger de Baden-Baden. Depois ele recordou comno todos os homens judeus da cidade receberam ordens para se apresentar na manhã do dia 10 de Novembro. Cerca de meio-dia eles tiveram que marchar pelas em direção à sinagoga. Muitos judeus acompanharam a marcha 'Eu via pessoas chorando enquanto olhavam por trás de suas cortinas, 'escreveu o Dr Flehinger, e completou 'Um dos vários cidadãos decentes disse: "O que vi não era um Cristo, mas uma fila de imagens de Cristo, que estavam marchando de cabeças erguidas, sem terem nenhum sentimento de culpa"'.

Enquanto marcham pelos degraus da sinagoga, vários judeus caíram, e eram espancados até que se colocassem em pé novamente. Uma vez dentro da sinagoga, os judeus eram confrontados com exuberantes oficiais nazistas e homens da SS. Dr Flehring recebera ordens de ler em voz alta passagens de Mein Kampf para seus colegas judeus. 'Eu lia as passagens em voz baixa, de fato tão baixa, que os homens da SS atrás de mim repetidamente batiam por trás em meu pescoço', Dr Flehringer se recordou depois. 'Os que tiveram que ler outras passagens depois de mim eram tratados da mesma maneira. Depois destas "leituras", houve uma pausa. Os judeus que precisavam ir ao banheiro eram forçados a fazer suas necessidades nas paredes da sinagoga, não nos banheiros, e eram fisicamente abusados enquanto o faziam.'

Os judeus foram levados para fora. Em uma hora, a sinagoga estava em chamas. 'Se tivesse sido minha a decisão,' dizia um dos homens da SS, 'vocês teriam perecido neste fogo.'

Nenhuma cidade em que os judeus ainda viviam esteve imune da destruição. Em Hoengen, uma pequena cidade próxima a Aachen, a pequena comunidade judaica tinha construído sua sinagoga em 1926: agora, doze anos depois, Michael Lucas, açougueiro por profissão, cuja casa era em frente à sinagoga, observava de sua janela os Stormtroops em ação. Seu sobrinho Eric depois se lembrou:

"Depois de um tempo os Stormtroops receberam reforços de pessoas sem uniforme; e de repente, um grito alto de 'Abaixo com os judeus', e a multidão carregava machados e marretas. Avançaram em direção à pequena sinagoga em frente à casa de Michael. Derrubaram a porta, e toda a multidão, rindo e gritando, invadiu a pequena Casa de D'us.

Michael, em pé atrás das cortinas, viu toda a multidão arrebentar a Arca Sagrada, e os três homens que a destruíram jogaram os rolos da Lei de Moisés para fora. Ele os jogou - estes rolos, que estavam ali dignamente quietos, enrolados em veludos azuis ou vermelhos, com suas pequenas coroas de prata cobrindo os topos dos eixos pelos quais o rolo era segurado durante o serviço religioso - para a massa de pessoas que berrava e gritava, e que havia invadido a sinagoga.

As pessoas pegaram os rolos como se estivessem se divertindo num jogo de bola - arremessando para o ar repetidamente, enquanto outras pessoas as arremessavam para trás até chegarem à rua do lado de fora. As mulheres rasgavam o veludo azul e vermelho, e todos tentavam pegar um pedaço dos adornos de prata dos rolos.

Desnudos e abertos, os rolos estavam caídos na alameda enlameada pelo outono; as crianças pisavam neles e os outros rasgavam pedaços do fino pergaminho no qual a Lei estava escrita - a mesma Lei que as pessoas que a rasgavam haviam, em vão, tentado absorver por cerca de mil anos.

Quando o primeiro rolo foi jogado para fora da sinagoga, Michael foi em direção a porta. Seu coração batia violentamente e seus sentidos estavam confusos e turvos. Uma fúria inigualável surgiu dentro de si, e seus punhos apertavam sua tempora. Michael esquecera que dar um passo para fora da casa, no meio daquela multidão, significaria sua morte.

Os Stormtroops, que ainda estavam do lado de fora da casa, olhando com severidade às pessoas da multidão que obedeciam aos seus comandos sem de fato perceber, teriam atirado em Michael quase que naturalmente. Sua esposa, sentindo o perigo, correu atrás de seu marido, e se agarrou a ele, implorando para que ele não fosse para o lado de fora. Michael tentou empurrá-la para o lado, mas somente sua resistência tenaz trouxe-o de volta aos sentidos.

Ele ficou ali parado, no pequeno hall em frente à porta, olhando ao seu redor por um instante, como se não soubesse onde estava. De repente se apoiou na parede, com lágrimas escorrendo de seus olhos, como de uma criança pequena.

Depois de um tempo, ouviu o som de marretas do lado de fora. Com as pernas tremendo, levantou de sua cadeira e foi olhar para fora novamente. Homens haviam escalado no teto da sinagoga, e estava lançando telhas para baixo, enquanto outros derrubavam as vigas do prédio. Não demorou muito para que as pedras cinzentas e pesadas começassem a cair, e as crianças da vila se divertiam arremessando pedaços de pedra nos vitrais coloridos.

Quando os primeiros raios frios e pálidos do sol de novembro penetravam as nuvens pesadas, a pequena sinagoga era apenas uma pilha de pedras, vidros quebrados e pedaços de madeira.

Onde os dois florais ficavam, guiando para a porta da sinagoga, as crianças haviam acendido uma fogueira alimentada pelo pergaminho dos rolos sagrados e pela madeira que, até o dia anterior, tinha sido a Arca Sagrada para os rolos da Lei de Moisés.
"

Cenas similares se repetiram por todo o Reich. Em Worms, Herta Mansbacher, diretora-assistente da escola judaica, estava entre os que conseguiram apagar o fogo da sinagoga, mas uma gangue de baderneiros logo chegou para acender novamente. Num gesto de desafio, Herta barrou a entrada deles. 'Assim como eles queriam destruir a casa de orações judaica,', escreveu um historiador de Worms, 'ela queria impedí-los, até mesmo pondo em risco sua vida'.

Herta foi eventualmente empurrada para o lado, e a sinagoga queimou até o fim. Ela sobreviveu, até a deportação de Worms em 20 de março de 1942.

Logo após a KristallNacht, a comunidade judaica alemã foi 'multada' pelo prejuízo causado. A multa, um bilhão de marcos, foi cobrada com o confisco de vinte por cento das propriedades de cada judeu alemão. O confisco foi promulgado por um decreto do governo de 12 de Novembro de 1938. Três dias depois, após mais de cinco anos sendo ridicularizadas e discriminadas, as crianças judias foram finalmente impedidas de frequentar as escolas alemãs.

Nem todos os alemães assistiam estes acontecimentos insensíveis ou despreparados para desafiá-los. Em 16 de Novembro de 1938, uma semana depois da KristallNacht, o pastor J. Von Jan pregou para sua congregação em Swabia: "Casas de oração, sagradas para outros povos, foram queimadas com impunidade - homens que serviam nossa nação e conscientemente cumpriam seus deveres foram jogados em campos de concentração simplesmente por pertencerem a um raça diferente. A infâmia da nossa nação está condenada a trazer a punição divina sobre nós".

Arrancado de sua aula de Bíblia por uma multidão de nazistas, o Pastor Jan foi brutalmente espancado e jogado no teto de uma barraca, enquanto seu vicariato era destruído assim como as casas judaicas haviam sido. Ele foi preso então.

Fonte: The Holocaust - A History of the Jews of Europe During the Second World War
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